Na década de 70, o então czar da economia, Delfim Netto, recomendava deixar primeiro "o bolo da economia crescer para depois repartir". Hoje, o professor José Luiz Oreiro, da UnB, critica a ortodoxia que defende a acumulação prévia de poupança para que os países possam lançar as bases para o desenvolvimento sustentável de longo prazo. "O próprio crescimento gera poupança. Boa parte da elevada taxa de poupança da China resulta do crescimento econômico", disse, em entrevista exclusiva ao MM, negando, também, que a formação de poupança seja pré-condição para uma taxa de câmbio competitiva. "Mais da metade da poupança chinesa é gerada pelas empresas e essa poupança corporativa, por sua vez, resulta do câmbio competitivo." Mesmo reconhecendo que a moeda desvalorizada distribui renda das famílias para as empresas, Oreiro argumenta que os trabalhadores são beneficiados no longo prazo: "Na medida em que o câmbio competitivo foi mantido, a China se industrializou e cresceu mais rapidamente, o que repercutiu no emprego e, consequentemente, nos salários." O gigante asiático, segundo o economista, conseguiu evitar o populismo cambial: "Manter o câmbio valorizado, gerando bem-estar de curto prazo, ganho de poder de compra, mas que não se sustenta no longo prazo é uma praga que assola o Brasil e foi a causa de muitas crises na América Latina. Esse é o populismo mais perverso da região", criticou., acrescentando que, em matéria de política cambial, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, é "o cara". Isto porque, para Oreiro, "a Revolução Bolivariana encontrou o caminho para obter câmbio depreciado e competitivo no longo prazo".
Fonte: Monitor Comercial