O custo imenso das taxas de juros
Antônio Delfim Neto
Em entrevista à imprensa, publicada na terça-feira passada, 20 de julho, antevéspera da reunião do Copom (Comitê de Polítca Monetária, do Banco Central), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deixou de lado a habitual discrição e desafiou a autenticidade das estimativas do "mercado" acolhidas no boletim Focus do BC. O ministro comentou o "equívoco dos analistas de plantão entusiasmados com as próprias análises" que diziam que a economia estava superaquecida e que estávamos perdendo o controle da inflação. Esses analistas chegaram a estimar uma inflação de 5,6% para este ano.
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, que mede oficialmente a inflação) zero em junho foi um choque na cabeça desses analistas, criticou o ministro Guido Mantega.
Além disso, o ministro da Fazenda acrescentou em sua entrevista: "Até o Focus, que é lento, já reviu essas estimativas para baixo; como ele revisa a cada semana, vai acabar acertando no final do ano". A contrariedade do ministro Mantega -revelada de uma forma, digamos, inesperada- não era uma posição isolada, nem dentro nem fora do governo. Nas semanas que antecederam a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (finalmente contida em 0,50 ponto percentual de alta na taxa básica, conforme se anunciou na quarta-feira) o próprio mercado se mostrava dividido. Um terço do mercado achava que com um aumento de meio por cento percentual na taxa Selic as coisas caminharão bem, enquanto dois terços acreditavam que era preciso continuar insistindo em altas maiores, estimadas em 0,75 ponto percentual.
Não tenhamos dúvida de que essa disputa vai continuar a vida inteira, porque o Banco Central tem a missão de controlar a inflação. Ninguém é contra a autonomia operacional do Banco Central. Ao contrário, já está provado que essa autonomia é uma boa coisa. O que está em questão são os instrumentos, ou melhor, os parâmetros que o Banco Central usa para calcular qual aumento de juros considera necessário para manter a meta de inflação.
De forma elegante, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, aponta, como "equívocos", algumas evidentes distorções nos resultados das pesquisas, fruto na realidade de uma enorme torcida que se desenvolve entre os agentes do mercado, da qual se extraem lucros fabulosos. O maior de todos os equívocos, no entanto, é admitir a validade de levantamentos nos quais não são ouvidos os agentes dos setores produtivos da economia, os fabricantes de parafusos, os frequentadores do chão de fábrica.
Muito embora a base objetiva para isso seja nula, o Banco Central acredita que o Brasil é um país teratológico, um país doente, que precisa de uma taxa de juros real de 7% para controlar a inflação e que não pode crescer mais do que 4,5% ou 5%. Esses são os limites admitidos pelo que chamam de "produto potencial".
O que acontece é que são dois parâmetros altamente discutíveis que informam a política do Banco Central, e muito difíceis de serem calculados com a precisão e a segurança desejáveis. O que é preciso saber, então, é se os modelos do Banco Central que exigem estes dois parâmetros podem ser continuamente utilizados, porque são imensos os custos sociais dos erros das estimativas do juro real e/ou do "produto potencial".
Quem sofre as consequências desses erros é a sociedade brasileira, porque a atividade econômica cresce menos do que poderia crescer no País.
Em resumo, é enorme a perda de bem-estar de toda a sociedade, no longo prazo, com a redução do ritmo de crescimento do PIB per capita, se esses parâmetros não foram bem calculados.
O País é que sofre as consequências dos erros do BC, já que cresce menos do que poderia.
Fonte: DCI